Segredos das pessoas felizes IV

Na minha busca em decifrar os segredos das pessoas felizes tento definir o que é felicidade e um dos que mais gosto é “Felicidade é quando você pode morrer em paz”. Hoje me senti assim, eu e minha esposa na chácara, Lucas na churrasqueira, Matheus aqui também. Por um instante podia até morrer, me senti em paz, completo, feliz.

(Churrasco na quarentena com meus filhos 19 abr 2020)

Hoje me deu saudade de alegria

Hoje me deu saudade de alegria
Da gritaria, da cantoria
Invadem minha casa, expulsem a calmaria
Hoje me deu vontade de convidar toda família
De encher a cara, de enrolar nas palavras
Enchem minha casa, incomodem a vizinha
Hoje não quero ouvir sobre pandemia
De hipocrisia, de neoplasia
Entrem na minha casa, pela sala, pela cozinha,
pela poesia

(Plagiado, mas prefiro dizer inspirado no lindo poema Traga uma notícia boa de Geraldo Cunha, publicado no blog https://divagacoesgcc.wordpress.com/author/divagacoesgcc)

Hoje não estou nada afim

Hoje não estou nada afim
Nesses dias penso em desistir
Lido bem com a solidão
Mas sinto falta de uma razão

Tanta luta pra continuar
Sem saber aonde vou chegar
Queria meu pai aqui comigo
É tão bom sentir protegido

Sei que devo seguir em frente
Como fazem toda essa gente
Que perdem tudo em um segundo
Desmoronando, um nó profundo

Não preciso de misericórdia
Nem brigas e discórdias
Só peço amor pra recomeçar
Sem pressa para me entregar

Do futuro eu não quero saber
Vivo um dia de cada vez
Sem esquemas e expectativas
Com um sorriso de boas-vindas

Amor de pai

Meu “Tio Jorge” morreu ontem à noite, no dia do meu aniversário, não será por isso que lembrarei com saudades dele. Dias atrás, o visitei na UTI, aprendi. Naquele estado, alimentando-se por sonda, me disse que tentava guardar da aposentadoria um pouquinho todo mês para mandar pro meu primo, estava angustiado, queria poder ajudar mais. Nem no leito de um hospital, numa situação tão frágil esqueceu das preocupações com os filhos. Ah!!! Já estou vendo, isso também será a nossa sina até o nosso último dia.
Meu pai já tinha me revelado, o vi chorar somente 2 vezes, quando soube da morte do meu avô e quando me visitou no hospital em 2017. Mesmo com a saúde debilitada e a consciência da realidade bem afetada, a minha ausência, devido a cirurgia, o atormentava, até que meu irmão o levou no hospital, me viu, chorou, aliviou-se e logo quis ir embora. A preocupação com os filhos estava intacta, inviolável mesmo com o Alzheimer avançado.
O que dizer do amor dos pais para com os filhos? Os atos, às vezes, podem parecer irracional, inconsciente, inconsequente, incoerente até imoral, mas quem de nós poderá julgar?

(16 jan 2020, falecimento do meu tio Jorge)

Feliz aniversário!!!

Nos idos de 77 eu achava tão distante os anos 2000 e realmente era, mas como nos filmes de ficção científica, transportamos em uma máquina do tempo e chegamos em um piscar de olhos.

Agora cá estamos quase em 2020, mais um pulo no tempo, apesar de se passarem meio século da minha existência, não é tão comum esse momento de reflexão nessa altura da vida sem que o destino pregue alguma peça. Temos o costume de afrontar o tempo, tarefa árdua que até agora nunca vi alguém obter sucesso, eu era um deles, escondia a minha verdadeira idade (não gostava de comemorar aniversários), mas por uma dessas ironias do destino, apareceram meus primeiros cabelos brancos aos 20 que eu insistia em disfarçá-los. Gostava sempre de aparentar mais jovem, por um tempo até que me iludi bem.

Em 2017 veio a luta contra um câncer, na busca da cura tentamos lidar com a situação sem a devida noção de tudo que nos cerca, dentro e fora. Vem como um tsunami e num instinto de sobrevivência agarramos em qualquer coisa que está em nosso alcance.

Nesse processo, passei por uma nova cirurgia, um corte na barriga que tornou-se impossível não revisitá-la todos os dias.

Um simples respirar mais profundo doía, espirrar então, mas não havia alternativa. Fica aqui, mas que uma metáfora, a necessidade de expelir o que me faz mal: orgulho, raiva, vaidade, ego e oxiginarmos na fé, gratidão, perdão, humildade, bondade. Quem disse que não dói, a dor faz parte da cura.

Deus me permita, mesmo que em mais um salto no tempo, que eu chegue em 2050, celebrando a cada ano,  um novo feliz aniversário.

(20 a 25 nov 2019 nova internação hospitalar)

Como vão vocês?

Vivemos a vida através de relacionamentos superficiais, sim, no fundo é isso, mesmo que não concorde, vivemos.
Talvez como escudo para não nos ferirmos ou como desculpa para não envolvermos com os problemas do outro, afinal o problema não é meu, não tenho tempo pra mais nada.
Quantos perfis são fakes, quanto da sua vida apresentada é verdade?
Até a nossa relação intrapessoal é superficial. Falo por experiência, tive muito medo da viagem pelo autoconhecimento, mas quando você luta contra um câncer é um caminho sem volta.
Percebi que não sabia muito sobre mim, o desconhecido dá medo. Como a maioria, pedi a misericórdia de Deus, afinal “Deus sabe o que faz, ele está no controle”.
Entreguei-me nas mãos dele, mas com o pé atrás, enfim a vida é minha, tinha que lutar por ela. Tive fé, sorte, coincidências, orações que me ajudaram até agora.
A vida é feita de batalhas, quando se vence a guerra é a morte. Vencemos mais uma, os médicos foram unânimes em dizer que os resultados dos exames foram excepcionais até agora, falaram até que há uma esperança de cura definitiva no final do tratamento. Meu Deus!!! Deus do impossível. Nessa busca, descobri que sou contradições, dúvidas e certeza, “tudo ao mesmo tempo agora” como dizia os Titãs.
E você? Já tentou descobrir quem é?

(Após resultado do PET-CT realizado dia 25 out 2019)

Como você está?

Me sinto sortudo, mas sorte, nesse contexto, pode ter outra conotação dependendo da crença que acredita.
Afirmo isso, pois há alguns fatores que poderiam interromper as sessões de quimioterapia como:

1) Um resultado negativo do exame de sangue que realizo antes de cada sessão
2) Problemas no infusor ou trombose causado por ele, tive trombose mas está sendo contornado através de medicamentos
3) Efeitos colaterais agudos
4) Ineficiência do tratamento

Como não houve interrupção finalizei ontem dia 17 set 2019 a sexta sessão semanal de quimio.

Outra evidência positiva é que o exame de tomografia que realizei dia 05 set indicou uma redução da doença.

Mas nem tudo são flores, não foi tão fácil focar no tratamento quando as contas não paravam de chegar (além das despesas normais há os custos adicionais dos remédios e de algumas consultas e exames não cobertos pelo convênio), por isso, nesses quase 2 meses afastado, tive que correr atrás do auxílio doença e na formalização na empresa. A experiência do primeiro afastamento me ajudou nesse processo, pois nessa ocasião o crédito do auxílio doença somente começou a ser depositado após 3 meses e nesse novo afastamento já recebi o primeiro crédito. Além disso, houve um stress danado para cancelar uma viagem internacional programada e mesmo assim reembolsaram-me somente parte do valor, alegando custos da multa pelo cancelamento, mesmo com todos os exames e atestados médicos enviados.

Às vezes bate um certo cansaço, desânimo, pessimismo, uma observação, nós que trabalhamos com suporte de infraestrutura somos pessimistas por obrigação, ou seja, temos que imaginar tudo que pode dar errado e tentar minimizar os riscos ao máximo com os recursos disponíveis e isso acabei levando um pouco para a minha vida particular, sempre pensando no plano B, C, etc. o afastamento do dia a dia da empresa me ajudou muito nesse ponto.

A minha rotina atual está na preocupação de me alimentar da melhor maneira possível para não perder peso, exercícios físicos diários, fortalecimento da mente e espírito. A tríade corpo, mente e espírito. Como pretendo voltar a trabalhar preciso melhorar os meus conhecimentos e reservo um tempo para isso também.

Todo esse processo tem seu lado bom, hoje me satisfaço com muito menos, por exemplo, fico feliz em um dia que me alimento bem ou não sinto nenhuma dor. Agradeço todas as noites por dormir na minha cama, tomar meu banho sozinho, poder sentir o gosto dos alimentos que por um período não podia ou não conseguia.

Fazer parte da rotina diária dos meus filhos, da esposa, da minha mãe também é muito gratificante, na qual era impossível trabalhando.
Coisas simples como levar os meus filhos na faculdade, preparar o café da manhã para minha esposa ou levar minha mãe para o supermercado tem outra dimensão e importância agora tanto para mim quanto para eles.
“Como você está?”

(Segundo período de afastamento que iniciou dia 22 jul 2019 para tratamento do câncer)

70? Década do Divino Maravilhoso

Revisitei minha infância no espetáculo 70? Década do Divino Maravilhoso.
No apogeu da ditadura militar a infância passou por mim.
Nesses primeiros anos de vida vivenciamos os dias com mais naturalidade e leveza, chegam e vão sem que processamos muito, vem direto, sem neuras, sem procurar por segundas intenções, sem perda de tempo. Transformam-se em lembranças ou ficam lá escondidas.
Ontem, trouxe-me de volta a Neusa, a nossa empregada que ouvia Roberto Carlos e Ângelo Máximo, a amizade e o primeiro amor foram apresentadas a mim nos versos de eu quero ter 1 milhão de amigos e a primeira namorada, ela se casou e foi embora sem antes nos presentear com ovos de chocolate na Páscoa ou roupas novas no Natal, impensável hoje, a empregada presentear os filhos dos patrões, mas éramos tão pobres quanto.
Ah! Prof Silvia com João e Maria de Chico Buarque.
Prof Luiz com os filmes Pixote e Lúcio Flavio , Prof Marlene, como vão vocês?
Como é transformador o querer bem sem esperar nada, isso eles fizeram por mim. Precisamos resgatá-los do naufrágio do dia a dia, sobreviventes da nossa memória.

(25 maio 2019 fomos ao espetáculo 70? Década do Divino Maravilhoso)